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O “quase conseguir” pode ser uma armadilha… ou um sinal de evolução?

 

Por que algumas pessoas continuam apostando mesmo depois de tantas perdas?

Perder normalmente reduz a motivação para continuar tentando. Intuitivamente, esse seria o comportamento esperado. No entanto, um estudo publicado em 2009 pelo neurocientista Luke Clark e colaboradores, na revista Neuron, mostrou que existe um tipo específico de perda capaz de produzir exatamente o efeito contrário.

Os pesquisadores investigaram um fenômeno conhecido como Near-Miss Effect, ou efeito do “quase conseguir”. Ele ocorre quando uma pessoa perde, mas tem a sensação de que esteve muito próxima da vitória. Embora o resultado seja objetivamente uma perda, esse tipo de situação aumenta a motivação para continuar jogando.

Além disso, utilizando exames de ressonância magnética funcional (fMRI), os autores observaram que os near-misses ativavam regiões cerebrais normalmente associadas ao processamento de recompensas, apesar de nenhuma recompensa ter sido obtida. Um dos resultados mais curiosos do estudo foi que esse tipo de perda foi considerado mais frustrante pelos participantes do que uma perda comum e, ao mesmo tempo, aumentou o desejo de continuar jogando.

Segundo Clark e colaboradores, esse mecanismo ajuda a compreender por que jogos de azar conseguem manter tantas pessoas apostando. O “quase conseguir” não altera as probabilidades da próxima aposta, mas pode fazer o cérebro interpretar aquela experiência como um incentivo para continuar tentando.

Por que isso pode se tornar uma armadilha?

O estudo de Clark sugere que o Near-Miss Effect funciona como um sinal de aprendizagem equivocado.

Na maior parte das situações da vida, chegar perto de um objetivo costuma significar progresso. Um atleta que perde uma prova por poucos centésimos, um estudante que quase alcança a nota necessária ou um músico que quase executa uma apresentação perfeita normalmente estão desenvolvendo suas habilidades. Nesses contextos, faz sentido interpretar o “quase” como um incentivo para continuar praticando.

Nos jogos de azar, entretanto, essa lógica deixa de funcionar.

Mesmo que uma pessoa fique repetidamente muito próxima da vitória, isso não significa que suas chances aumentaram. Cada nova aposta continua sendo independente da anterior. Ainda assim, o cérebro pode interpretar essa sensação de proximidade como um sinal para continuar jogando.

É justamente por isso que o Near-Miss Effect pode contribuir para a manutenção do comportamento de apostar. A motivação aumenta, mas ela não está sustentada por um processo real de aprendizagem.

Isso não significa que o near-miss seja a causa do vício em jogos. O estudo não chega a essa conclusão. O que os autores demonstram é que esse fenômeno ajuda a explicar um dos mecanismos psicológicos que tornam os jogos de azar tão envolventes e podem contribuir para a persistência do comportamento de jogar.

O que essa descoberta pode ensinar ao poker?

Até esse ponto, os resultados apresentados pertencem ao estudo de Luke Clark e foram obtidos em jogos de azar.

Quando esse estudo é analisado em conjunto com o artigo The Psychology Of The Poker Player: Neuro-Cognitive Models From Poker Table To The Boardroom, de Ivan Kuzmanov (2025), surge uma reflexão interessante.

Enquanto nos jogos de azar o “quase conseguir” pode manter uma pessoa motivada sem que exista qualquer aprendizagem real, no poker existe um fator que muda completamente essa lógica: a habilidade influencia os resultados ao longo do tempo.

Isso significa que estudar teoria, revisar mãos, analisar decisões e corrigir erros permite que o jogador desenvolva competências que aumentam sua expectativa de desempenho no longo prazo.

Sob essa perspectiva, o “quase conseguir” pode assumir um significado diferente.

Ele continua aumentando a motivação para continuar jogando, mas essa motivação pode estar acompanhada por um processo genuíno de desenvolvimento das habilidades.

Entretanto, essa interpretação depende de uma condição fundamental: o jogador precisa avaliar a qualidade do próprio processo de decisão.

A diferença entre sensação e evidência

É justamente nesse ponto que o poker se diferencia dos jogos de azar.

Nos jogos de azar, a sensação de ter estado perto da vitória não representa evidência de progresso. Como não existe um processo consistente de aprendizagem, o “quase conseguir” pode levar a pessoa a insistir em um comportamento que não aumenta suas chances de sucesso.

No poker, por outro lado, existe um processo real de evolução técnica.

Por isso, a sensação de proximidade não deve ser interpretada isoladamente. Ela precisa ser acompanhada por uma análise criteriosa das decisões tomadas.

Muitos jogadores experientes não perguntam apenas:

“Quase ganhei?”

Eles procuram responder perguntas diferentes.

“Minha decisão foi tecnicamente correta?”

“Utilizei a melhor estratégia para aquela situação?”

“Meu processo de tomada de decisão está evoluindo?”

Quando essa avaliação demonstra que as decisões estão melhorando, o “quase conseguir” pode deixar de ser apenas uma resposta emocional e passar a representar um possível indício de desenvolvimento das habilidades.

Não é o resultado que fornece essa resposta.

É a qualidade do processo.

Persistência ou insistência?

Essa talvez seja a principal diferença entre os dois contextos.

Nos jogos de azar, insistir pode se tornar uma armadilha. O “quase conseguir” mantém a motivação elevada, mas não existe garantia de que continuar jogando aumentará as chances de vitória. A sensação de estar perto pode permanecer durante muito tempo sem que o resultado realmente aconteça.

No poker, a lógica é diferente.

Como diversos estudos mostram que a habilidade supera a variância no longo prazo, persistir pode fazer sentido quando essa persistência está baseada em estudo, prática deliberada, revisão das mãos e melhoria constante das decisões.

Nesse contexto, continuar tentando deixa de ser apenas uma reação ao “quase conseguir” e passa a fazer parte de um processo de aprendizagem.

A diferença entre insistência e persistência não está na quantidade de tentativas.

Está na existência — ou não — de evidências de que as habilidades estão evoluindo.

Considerações finais

O estudo de Luke Clark mostrou que o “quase conseguir” produz uma reação psicológica muito diferente de uma perda comum. Mesmo sem recompensa, ele aumenta a motivação para continuar jogando e ativa regiões cerebrais relacionadas ao sistema de recompensa, ajudando a compreender por que jogos de azar conseguem manter tantas pessoas apostando.

Quando essa descoberta é analisada em conjunto com o artigo de Ivan Kuzmanov, surge uma reflexão importante para o poker.

O mesmo fenômeno psicológico pode ter significados diferentes dependendo do contexto.

Nos jogos de azar, o “quase conseguir” pode manter uma pessoa presa a um comportamento que não produz aprendizagem.

No poker, quando existe estudo, análise crítica das decisões e desenvolvimento das habilidades, essa mesma motivação pode fazer parte de um processo real de evolução.

Talvez a pergunta mais importante não seja:

“Quase consegui?”

Mas sim:

“Existe evidência de que minhas decisões estão melhorando?”

No poker, essa resposta não está no resultado de uma única mão.

Ela está na qualidade das decisões construídas ao longo do tempo.

Referências

Clark, L., Lawrence, A. J., Astley-Jones, F., & Gray, N. (2009). Gambling Near-Misses Enhance Motivation to Gamble and Recruit Win-Related Brain Circuitry. Neuron, 61(3), 481–490. https://doi.org/10.1016/j.neuron.2008.12.031

Kuzmanov, I. (2025). The Psychology Of The Poker Player: Neuro-Cognitive Models From Poker Table To The Boardroom. Journal of Novel Research and Innovative Development, 3(6). Disponível em: https://doi.org/10.56975/jnrid.v3i6.701486